sexta-feira, 2 de junho de 2017

Falemos de gentrificação e de Lisboa

Gentrificação ('gentrification', em inglês) compreende, desde há muitos anos, teorias e dissertações de estudiosos de diversas áreas. As transformações urbanas em Nova Iorque (Harlem e 'East Side') e Londres (Kensington, Notting Hill e Soho) são escassos exemplos de lutas sociais e 'cases studies' que se multiplicaram por várias cidades do mundo.
Na síntese social e económica do debate teórico, há uma ideia consensual muito abrangente:
"A gentrificação tem na actualidade uma dimensão global e, nos processos desenvolvidos, os interesses dos investidores em activos imobiliários prevalecem sobre os valores e direitos inerentes às condições de vida das populações locais, tradicionais e de menores rendimentos."
Centre-se a abordagem em Lisboa (e, por analogia, no Porto). No último ano e meio, os preços de aquisição e de arrendamento de casas tiveram subidas muito acentuadas. Na zona histórica de Alfama, um T1 é arrendado por 2.200 euros, no Lumiar um T3 vale uma renda de 1.800 euros (valores mensais) e, segundo uma responsável da Remax com quem falei há cerca de 3 meses, o prazo médio de venda de um T2 em Telheiras é de 3 dias e o preço pode variar entre 250.000 e 300.000 euros. Há muitos compradores chineses, russos, brasileiros e de outras nacionalidades, disse ela.
Se atendermos a que o salário médio líquido em Portugal ronda os 810 euros e que, segundo as regras da economia familiar e do bom senso (os custos da habitação devem limitar-se, no máximo, a 35% do rendimento familiar), então concluiremos que, à classe de baixo-rendimento (low-income), temos de adicionar parte significativa da classe média para o conjunto da população sem capacidade financeira para adquirir ou arrendar casa na capital. Isto sucede no caso de famílias, como a divorciados ou solteiros a viver, eventualmente, sem filhos ou, pior ainda, com um ou dois descendentes.
No jogo da gentrificação, e em acréscimo aos famosos actores, actrizes e figuras de outras artes e ofícios estarem a demonstrar, activamente, preferência por casas em Lisboa, há um sector grande vencedor, o dos senhorios do chamado Alojamento Local (AL). 
No meio de tanta turbulência - e afluência de turistas - a verdade é que a população residente de Lisboa está a envelhecer e, nos últimos 10 anos, diminuiu drasticamente. 
Com o estrangeiramento das zonas históricas, a cultura popular, o associativismo recreativo, o bairrismo típico e demais traços identitários da cidade 'menina e moça' continuarão a desmoronar-se - temos de imaginar Michael Fassbender a marchar por Alfama, Monica Belluci pelo Castelo e, talvez, Madonna pela Madragoa. Tudo isto cheira mal, não cheira a Lisboa.
Na contenção da grande ofensiva contra a cidade, a sua população e a sua identidade, é necessário que a CML incremente a intervenção no mercado do arrendamento de longa duração e que o poder central lhe assegure meios para captar gente jovem para Lisboa, incluindo zonas históricas. 
A vereação com o pelouro da habitação já conseguiu alguns resultados, mas é necessário intensificar o grau de intervenção da autarquia no mercado de arrendamento, bem como da regulação mais exigente e do condicionamento da abertura de hostéis e da actividade do Alojamento Local. 
A teoria de Adam Smith de que a "mão invisível" regula o mercado é, comprovadamente, uma aberração.