sábado, 31 de dezembro de 2016

‘Réveillon’ da Sociedade Recreativa e Musical de Ribeira dos Olivais

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Um optimista deve ser realista. Nos contactos sociais, no ‘Facebook’ e nas redes sociais em geral, predomina a frase Bom Ano de 2017. Desejos e votos são generalizados. As heranças de 2016 – Síria, mortes no Mediterrâneo, atentados, eleição de Trump, ameaças de acesso da xenofobia ao poder em eleições na Europa, incremento, em relação a 2015, de 237 mil milhões de dólares das fortunas de umas dezenas dos multimilionários do planeta … - as heranças de 2016, dizia, são tão onerosas e consistentes que me deixam céptico quanto a 2017.
Efectivamente, é imperioso interrogar de que milagre a humanidade beneficiará, de modo a que, à meia-noite de todos os países à volta do Planeta, em uníssono, possam vir a desfrutar da maravilhosa melodia de que, em 1 de Janeiro de 2017, desponta um novo e feliz Mundo? Os mais frágeis do mesmo Mundo (crianças, mulheres, idosos, em especial) continuarão a ser vítimas, aos milhões, à volta da Terra. É a minha convicção, por muitos fortes e sentidos que sejam os desejos de um ‘Bom Ano’.
Sem esquecer os sofrimentos no Oriente longínquo, do Médio-Oriente e nas consideradas potências Ocidentais, entendo que, nada de novo e influente na melhoria das grandes causas humanitárias, se modificará. Optimista contrariado, penso: 2017 será certamente pior ou no mínimo igual a 2016.
Tenho, pois, de conformar-me ao refúgio da pequena vila onde faço a passagem de ano. Uma comunidade de 1.500 pessoas, na estrondosa maioria de idade avançada. Sem pensar nas ralações e infortúnios do dia-a-dia, vividos com tristeza, reencontram a alegria no Réveillon da Sociedade Recreativa e Musical de Ribeira dos Olivais.
Há baile, petiscos e copos. As senhoras, numa noite em trezentas e sessenta e quatro, vestem os vestidos de tafetá, carregados de naftalina, e envolvem-se em ‘écharpes’ de tule. Vestuário do tempo de jovens mães, quando baptizaram os filhos. Eles, de fato e gravata, usam pela enésima vez a indumentária ancestral com que se divertiram em festas de há muitos anos; os tecidos estão puídos, tão brilhantes como os sapatos engraxados.
O ano novo, para esta gente, cinge-se à felicidade de vestir estes trajes e dançar ao som de um quinteto designado ‘Os Rapazes da Rádio’ que é composto por sexagenários. Bailam ao ritmo de tangos, boleros, música portuguesa dos anos 1950 e 1960 e ainda melodias dessa época em inglês e italianas de Marino Marini (‘La Piu Bella del Mondo’, ‘Quando, Quando, Quando’ e outras que a intemporalidade da música exige serem perenes). O vocalista, claro, canta num género de inglês e italiano muito abaixo do que se considera macarrónico.
Entre as festividades institucionais, decoradas de fogo-de-artifício e de falsas promessas de um Mundo melhor, do Terreiro do Paço à Times Square, o Réveillon da Sociedade Recreativa e Musical de Ribeira dos Olivais é mais realista: esta noite vamos gozá-la, o ano que entra vamos sofrê-lo.  

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Défice de 2016, a sofrida frustração da direita neoliberal

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A fim de ser o mais sintético possível, sem, contudo, evitar um texto demasiado árduo pela aridez própria da linguagem económica, decidi fragmentar este ‘post’ em diversas partes.


1)      Contas do 3.º Trimestre de 2016
O INE publicitou aqui que o défice a reportar a Bruxelas, no fim do 3.º T de 2016, foi de 2,5%, calculado na óptica de ‘contabilidade nacional’ exigida pelo Tratado de Maastricht – esta funciona num sistema para a análise e avaliação macroeconómica, no qual é necessário usar um conjunto de contas articuladas que pretendem representar e quantificar todas as actividades económicas do país realizadas durante um período de tempo. Há uma ilação a extrair do citado défice de 2,5%
- é mais baixo 0,9% do que os 3,4% atingidos no período homólogo de 2015 pelo executivo PSD+CDS;
2)  Execução orçamental de Novembro de 2016
A DGO divulgou há dias a execução orçamental de Novembro/2016.  À partida há que sublinhar que os valores, neste caso, são calculados na óptica de ‘contabilidade pública’, segundo a valorização de entradas e saídas de fundos públicos (óptica de tesouraria). Julgo ainda útil adiantar algumas observações:
- o saldo das Administrações Públicas (AP’s) foi de – 4336 milhões de euros o que compara com - 4730 milhões de Nov-2015;
- o ‘saldo primário’ (saldo sem juros) melhorou para 3430 milhões de euros dos 2716 milhões registados em Nov-2015;
- a receita cresceu apenas 1,9% contra os 4,9% previstos no OGE 2016; ao passo que a despesa aumentou somente 1,3% face ao incremento previsto de 5,7%.
3) Investimento público
O investimento público (Formação Bruta de Capital Fixo) situou-se num nível muito baixo – a despesa de capital foi apenas 1% do PIB.
Nesta área, a direita ganha folgo para agressivas críticas. Esquece-se propositadamente do enorme desinvestimento público do executivo PSD+CDS, através da alienação de empresas, algumas estratégicas, que eram activos valiosos do Estado. Cito apenas ANA, CTT e EDP. Nesta última, informava hoje a SIC, já se registou uma retirada de dividendos de 700 milhões pelos chineses que participam no capital.
4) A comunicação social de direita – o ‘Observador’
Neste artigo no ‘Observador’, Ricardo Santos, revelando uma sede de vingança política e uma fragilidade confrangedora de conhecimentos de economia, logo no 1.º parágrafo, começa por colocar no mesmo plano os dados do INE e da DGO. Calinada! Acima demonstrei que as contas doo INE são calculadas em ‘contabilidade nacional’ e as da DGO em ‘contabilidade pública’. Compará-las, de forma ligeira, é erro grave.

sábado, 24 de dezembro de 2016

O provincianismo do Tavares, escriba do ‘Público’

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Tavares é de Portalegre. E Portalegre, claro, não tem culpa. Todavia, tem de reconhecer-se que, nas mais diversas localidades, há os filhos da terra que tanto podem manchar como prestigiar a cidade, vila ou aldeia onde vieram ao mundo. Exemplos muito claros: um indivíduo tanto pode associar Arouca a actos cometido por um cidadão da burguesia local, como em relação a outro de origem diferente, mesmo migrando para a capital, constatar que não logra dissociar-se do provincianismo que lhe está plasmado na pele e inculcado no cérebro, tornando-se promotor da má imagem da sua própria terra.
J. M. Tavares é daqueles jornalistas que, embora estudando em Lisboa, jamais se emancipou da tacanhez e do provincianismo. É de direita, opção que, no plano dos direitos humanos e da cidadania, qualquer democrata sério respeita.
No entanto, como jornalista que diz que é, deveria esforçar-se para se libertar do papel de provinciano, no estilo de intriga pessoal predominante nos artigos que publica no jornal ‘Público’. É incapaz de escrever sobre temas importantes e objectivos, acantonando-se na prosa subjectiva que visa sempre atingir ostensivamente alguém de esquerda.
A falta de imparcialidade de Tavares, desta vez, escolheu como visados Inês Pedrosa e António Guterres, ambos afectos ao PS.
O que leva Tavares a injuriar apoiantes da escritora? Não o facto de Inês Pedrosa estar a ser acusada pelo Ministério Público por abuso de poder na direcção da Casa de Fernando Pessoa; isto é já matéria de processo judicial em curso. Foi o facto de, em solidariedade com Inês, ter havido a iniciativa de 38 seus amigos do meio cultural subscreverem uma carta aberta em defesa da honra da escritora – entre os subscritores constam figuras destacadas da literatura e da música - Eduardo Lourenço, Tolentino Mendonça, Francisco José Viegas, Lídia Jorge e Sérgio Godinho, entre outros.
Em relação a António Guterres, considera igualmente crime que a AR tenha atribuído o prémio Direitos Humanos de 2016 ao novo Secretário-Geral da ONU (25.000 euros), o qual só poderia ser concedido a quem tivesse tido actividade numa ONG. Como esta condição não foi preenchida, e sem tomar em conta que António Guterres será o primeiro português a ocupar o mais alto cargo a nível da ONU, o juiz Tavares acusou a AR de acto de criminoso. Desvalorizou completamente o facto do homenageado ter passado de imediato, em minutos, o prémio a uma senhora de uma organização humanitária.
Quando um escriba de jornal inventa estes falsos crimes em relação a figuras de esquerda, nunca se empenhando em investigar por que razão outros processos judiciais que envolvem gente de direita estão paralisados (BPN, por exemplo), fica bem claro que, por doentio sectarismo, é incapaz de cumprir a missão de informar e opinar a preceito e com respeito pela deontologia da profissão. Tavares não consegue, de facto, ultrapassar a dimensão do provinciano, entretido com sarilhos que preenchem as conversas de café da pequenez de carácter.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Natal e o Ano Novo

Menino refugiado e morto nas praias da Turquia
Rejeição. Reacção de velhice? Responderia afirmativamente, se, para mim, estes rituais de Natal e Novo Ano não fossem acontecimentos penosos e hipócritas desde criança. 
Cada criança tem as condições de vida com que vem ao mundo. Nem todos nascemos e começámos a gatinhar sob o consolo  de vida fácil e feliz dos pais.
Faço parte do ‘baby boom’ após a II Guerra Mundial. Tempos difíceis na Europa, agravados em Portugal por um nefasto Salazarismo que, de tão nacionalista e fascista, renunciou o ‘Plano Marshall’ e a qualquer iniciativa a fim de integrar e desenvolver o País em termos socioeconómicos dentro da dinâmica europeia.
O meu Natal de infância, como o de milhares de crianças (ou milhões?) portuguesas, reduziu-se a uma modesta ceia, em cenários de brinquedos de lata. Em noites vividas sob a crueldade do frio e da tristeza, mascaradas de falsa euforia e vestidas de roupas e agasalhos que nos abrigavam desse frio em casas antigas, sem caloríferos e muito menos ar condicionado.
As crianças de Aleppo, a viver profundas desgraças que a Rússia, o Ocidente e o negócio de armas não dispensa – o Reino Unido há dias era assinalado como o principal fornecedor – sofrem (e muitas morrem) atrocidades e desprezo repugnáveis, das quais ninguém tem coragem de descrever e acusar com precisão os responsáveis, quanto mais combater com empenho.
Quando este ano, e em mero cumprimento de ritual repetido, mais do que em anos anteriores, a alegria de distribuir prendas e brinquedos aos meus netos tomar-se-á muito mais mitigada pela tristeza e não passará de uma encenação de actos que, no fundo, não sinto.
Eles, como outros filhos e netos, não têm a menor das culpas. Mas mulheres e homens influentes na Europa, de Schäuble a Hollande, de Dijsselboem a Merkel, de Marine Le Pen a Wilders, de Rajoy a Theresa May e muitos mais da Comissão e do Conselho Europeu, deveriam ter um Natal com fome e um 2017 cheio de privações. Assim, talvez sentissem a dureza da vida de desempregados, precários de trabalho e outros desvalidos que a profunda desigualdade de rendimentos aprofunda. Bem como as crianças dessas famílias.
O estado a que o mundo chegou, ilustrado pela fotografia deste ‘post’, deixa-me uma tristeza indescritível e apenas uma palavra de enorme estima e admiração pelo Papa Francisco, como homem e líder da ICAR. Tão célere não terá outro. No entanto, ele pouco pode fazer, a não ser denunciar tamanha barbaridade. E os obstáculos começam nesse antro de pedófilos e corruptos que é o Vaticano da IGOR. 
Por último, e sem hipocrisia, resta-me desejar Bom Natal e um Novo Ano Feliz a todos os que ainda acreditam, o que não é o meu caso.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Sátira e metáfora de George Orwell e as realidades da vida

O ‘poder’ e as manobras descritas por Orwell a propósito do Estalinismo denunciam as astúcias de acesso e exercício de mandar.
Conquistar o poder e satisfazer ambições socioprofissionais, a qualquer custo e dizimando os legítimos interesses e méritos de terceiros, transformou-se em comportamento comum que, de tão repetido, é aceite como hábito normal. Aberrante mas que serve na perfeição a realização de ambições pessoais, a maioria das vezes infundadas ou sem o menor reconhecimento de quem, sem interesse a não ser o próprio, se empenhou na defesa de direitos básicos de trabalhadores, sejam eles chefes ou humildes subordinados de ocasião.
Tenho, infelizmente, experiências desse tipo que, no fundo, se consubstanciam em abjecta ingratidão.
Sem ser sempre adversa, a vida é muito abrangente na qualidade, ou falta dela, de quem ajudámos ou com quem trabalhámos. A carreira profissional não será propriamente sempre nojenta, mas, entre os que encontramos pela frente, sempre há quem, analisado após o passar dos anos, tenha a ousadia de ser repugnante, quer ética e quer moralmente.
Sem ser perfeito, e com os devidos defeitos, jamais alguém me pode acusar de ser indiferente a objectivos, interesses e direitos de quem, do ponto de vista hierárquico ou financeiro, dependeu dos meus limitados poderes.
Posso ufanar-me de nunca ter enveredado pelos caminhos da corrupção ou mesmo de influências espúrias. A propósito da Quadra de Natal que, mais uma vez, vivemos, tenho o orgulho de ter sempre recusado os presentes com que fornecedores interesseiros me pretenderam brindar.
Mas, tenho mais casos de que posso orgulhar-me. Proporcionei carreiras profissionais a quem, de mão vazias, apenas procurava um estágio, por mais modesta – e por vezes nula – que fosse a compensação.
Fui adulado, com elogios e beijos, por quem, legitimamente diga-se, reconheceu os meus esforços para garantir o pagamento de salários, em tempo devido.
Todavia, a vida é em parte das vezes madrasta. Se garantes emprego a um necessitado de trabalho e rendimento, judeu ou católico, a recompensa pode vir a ser o despedimento. Tudo isto é real e o viver, independentemente de crenças religiosas, transforma-se em muitas ocasiões em percursos complexos. Felizmente, para mim, jamais foram irresolúveis.
Voltando a Orwell, e compatibilizando-o com os percursos vitais a que estamos subordinados, cito a velha frase “há uns mais iguais do que outros”. Paradoxal e felizmente, sempre fui dos “outros”.
Este ‘post’, como é visível, não passa de um desabafo. Sorte para todas e todos para este Natal e para outros que se venham a seguir. Desejos de um agnóstico.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Mário Soares

Mário Soares
Vivi até aos vinte e nove anos em ditadura. Sob a asfixiante perseguição da PIDE. Condicionado por outras entidades e métodos autoritários. Por excesso de malvado requinte despótico, impuseram-me inflexíveis restrições à liberdade. Algumas, diga-se à distância, a roçar o ridículo. Um dos episódios estrambólicos por mim vivido relacionou-se com um livro, em papel-bíblia, comprado à socapa, como muitos outros, na velha – não a actual – Livraria Barata na Avenida de Roma. Tratava-se da obra poética completa de Frederico Garcia Llorca. Um “bufo”, vendo o livro sobre a minha mesa no Café do Império, perseguiu-me a mim e ao meu grupo. Junto ao mercado do Chile, escondemo-nos. Vimos o reles “bufo”, desorientado, à nossa procura. Acabou por desistir.
Todas estas histórias e passagens de vida demonstram, de facto, a impossibilidade de ser livre no tempo do Salazarismo severo e maldito. Porém, a estas histórias juntam-se outras próprias do país mais atrasado da Europa que eramos (excluídas as colónias), em termos de degradada vida humana. 
Lembro-me dos meus camaradas da primária, Escola 15 de Lisboa, que viviam na “Quinta dos Peixinhos” (onde hoje fica a Escola Patrício Prazeres). Víamo-los andrajosos, descalços, a tiritar de frio e fome, a caminho das aulas. Eu e outros, sem sofrer de idêntica carência, repartíamos com eles os lanches da manhã.
A idade foi avançando e a Guerra Colonial também. Tive amigos mortos em Angola. Em especial, lembro-me do Luís que, pelo relato de outro amigo, soube ter sido morto numa emboscada. Quantas vidas foram ceifadas, desta ou daquela maneira, na Guerra Colonial? As estatísticas dizem que mais de 10.000, mas não incluem os estropiados e muitos outros que, do ponto de vista psíquico e social, ficaram diminuídos para a vida.
Propositadamente descrito com pormenor, esteve foi o Portugal da minha infância, da minha adolescência e até parte adiantada da minha juventude. Terminou em 25 de Abril de 1974. Milhões pelo país inteiro, sobretudo no 1.º de Maio que se lhe seguiu daí a dias, coloriram as ruas das cidades e saudaram a chegada da Democracia.
Mário Soares foi dos políticos portugueses que compartilhou da euforia com o povo. Juntamente com Álvaro Cunhal. A despeito do meu interesse pela política, jamais me filiei em qualquer partido ou corrente partidária. Nunca fui militante ‘socialista’ ou ‘soarista’, nem ‘comunista’ ou ‘cunhalista’.
Todavia, e pela luta empreendida para o sucesso da democracia em Portugal, nesta hora difícil que Mário Soares vive aos 92 anos de vida, não posso, nem devo deixar de expressar a minha solidariedade à família e votos da recuperação possível ao homem e político que respeito. Como qualquer outro, cometeu erros, mas do desempenho da sua carreira, Portugal extraiu benefícios e o país progrediu – claro que, nos complexos tempos actuais de domínio dos neoliberais e da xenofobia, há regressões e crises que atingem o mundo e multiplicam a pobreza. Não há muitos anos ainda vi Mário Soares a protestar contra estas perversões no Mundo na Avenida da República. Lutou até ao fim!
Considero reles, canalha, infame, ignominioso e aviltante que certas vozes se levantem em insultos contra o último dos civis, dos pais veteranos da Democracia Portuguesa. Gente abjecta e ordinária, incapaz de respeitar um adversário político, ao menos em fase crítica de uma longa vida de luta.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A Dra. Teodora Cardoso descobriu a pólvora


A presidente do Conselho de Finanças Públicas sofre de incontinência verbal (e ainda não existem fraldas para este tipo de incontinentes).
Está sempre disponível para continuadas intervenções públicas prejudiciais ao País, e contrariado alarmismo por si lançado, e infundado, sobre o défice previsto para 2016, veio hoje a público, no cáustico 'Jornal de Negócios', afirmar:
"Seria extremamente difícil o país aguentar juros de 5%."
Claro que o montante da dívida pública portuguesa, desde há mais uma década, tem sido agravado. Tanto pelo governo anterior, a despeito do programa de reajustamento da 'troika', como pelo actual executivo. O risco de aumento de juros é real. No entanto, há outras causas externas
Entre o tempo de um e outro executivo, há transformações instrumentais e de mercado que são ignorados pela Dra. Teodora. Citemos:

1) Em termos exógenos de mercado, que obviamente são impossíveis de dominar por mecanismos internos, começamos pela promessa de Donald Trump de reduzir substancialmente a taxa sobre lucros das empresas (equivalente ao nosso IRC) se ter traduzido numa animação bolsista, mercado de acções em alta, em detrimento das taxas de obrigações de dívida pública. Perspectivam-se para estas últimas naturais aumentos de taxas de juro e fugas de investidores.
2) A redução de compra de activos anunciada pelo BCE, Mário Draghi, é outro factor adverso para o investimento em obrigações de dívida pública.
3) A prestigiada Bloomberg é a própria a reconhecer que as obrigações de dívida alemã tendem definitivamente a deixar de ser transaccionadas a taxas de juro negativas - veja-se este artigo e gráfico da referida Bloomberg.

Há, pois, uma série de factores de mercado, incontroláveis individualmente por qualquer país,  ainda para mais de dimensão macroeconómica reduzida, caso de Portugal. 
Todavia, o fenómeno, embora com maior enfoque nos mais frágeis, atinge sobretudo as economias da UE. Itália é das economias que está a sentir uma crise agudizada; as taxas de obrigações superam os 2% e a recapitalização do Banco 'Monte Paschi' em 5 mil milhões de euros são sinais das dificuldades com que os italianos se confrontam.
As explicações para os aumentos de juros de dívida pública não encontram eco no estilo interventivo gratuito da presidente do CFP, mas em causas diversas e complexas a nível global. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Do ‘Observador’ ao parecer do FMI sobre Portugal

O ‘Observador’, voz-activa da direita neoliberal, hoje, sentiu de certeza uma profunda decepção, ao ser compelido a reconhecer expressamente o "Fundo [FMI] está optimista, até que o Governo, para o crescimento […].
Tantas são as vezes e o modo que, aqui no Facebook, tenho lido simples e anacronicamente eufóricas citações e referências a tudo que, no entender dos subscritores fieis ao ‘Observador’, de extrema dureza em relação à responsabilidade do Governo de António Costa, que facilmente imagino a mágoa de certos desses subscritores. A maioria coloca os interesses partidários acima do interesse nacional e do País, o que me chega a ofender – vítima de visões mesquinhas e próprias de quem fica limitado ou toldado pela óptica estreita, e necessariamente estúpida, de quem é incapaz de secundarizar os objectivos partidários ao interesse da maioria da população portuguesa.
Sem ser necessário alongar-me em justificações, entendo que a transcrição de parte mais importante do texto do FMI é suficiente e suficiente para esclarecimeos.
Perspectivas de curto prazo de Portugal melhoraram, principalmente na parte de uma aceleração das exportações no terceiro trimestre de 2016. Este resultado de crescimento maior do que o esperado seguidas relativamente à moderada actividade os dois trimestres anteriores. No entanto, uma continuação do forte crescimento que é amplo seria necessário para concluir que uma mudança sustentada para uma rápida recuperação que está em curso. Para 2016, os orçamentais e alvos das autoridades estão ao seu alcance, e a conta corrente deverá para manter-se em um pequeno excedente. No contexto da confiança do consumidor, melhorou, os riscos de curto prazo para as perspectivas macroeconómicas são globalmente equilibrados. As perspectivas de médio prazo, no entanto, continuam a ser largamente inalteradas e são vulneráveia a choques, em função do elevado nível da dívida pública e privada, continuando a banca com pontos fracos do sector e de persistente rigidez estrutural. Isto requer esforços ambiciosos melhorar a resiliência do sector financeiro, garantir a consolidação orçamental durável e aumentar o potencial de crescimento da economia.

O FMI jamais se dá por satisfeito. Sem desprezar as observações em relação à evolução futura – a dívida externa e interna são os graves problemas - resta-nos a pergunta: “O país sob o poder de Passos Coelho e Cristas estaria melhor? A meu ver, responderia racional e incondicionalmente: NÃO!.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A Obama o que é de Obama

Qual será o futuro próximo da presidência dos E.U.A. Uns cidadãos do Ohio, do Arizona, do Arkansas, do Texas e da Florida acreditam que esse futuro será risonho para os estado-unidenses e para o Mundo. Eu creio que será lacrimoso. Vamos esperar, ver e concluir. Depois se saberá da verdade, sempre que esta não seja mitigada por informação deturpada e a estratégia da propaganda.
O reputado ‘The New York Times’, na edição de hoje, publica em título:
O Presidente Obama Está a Entregar uma Economia Forte ao Seu Sucessor
O jornal justifica este desempenho económico com a continuidade da criação de empregos nos E.U.A. (+ 178.000 novos postos de trabalhos no último mês); queda da taxa de desemprego para 4,6% em Novembro.
Lá como cá, existem sempre quem, frustrado, desvalorize os dados económicos. Um tal Gus Fauther argumenta que a queda do desemprego “deriva mais da queda da força de trabalho do que do aumento do emprego interno”.
A economia presta-se a isto. É um mundo de teorias e especulações, muitas sem fundamento científico. Vamos aguardar aquilo que Gus e outros especialistas especulativos dirão dos resultados do modelo prometido por Donald Trump aos norte-americanos. Umas vezes assim, outras vezes assado.
Do que não tenho dúvidas é que toda a evolução descendente do desemprego é mérito da política de Obama e, ultimamente, de Janet Yellen, presidente da FED.
Mas, por ora e como presidente, ninguém pode negar a Obama esse mérito.
Entretanto, salta-me uma preocupação. Uma vez que as taxas de juro da FED subam, que sucederá à política monetária e resultados do BCE na Europa? É natural que os títulos de dívida pública de Portugal e de outros países europeus, ditos periféricos, venham a agravar-se. Será que vamos passar por dificuldades económicas graves? Se Passos Coelho se agarra a este argumento disparatará horas a fio em coro com Maria Luz de Albuquerque, tendo como som de fundo a Cristas a cacarejar.
Aguardemos…

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Ópera no Café Iruna de Pamplona

Café Iruna, Pamplona
O vídeo é muito conhecido. Eu próprio o publiquei há anos, como, então, autor do blogue 'Aventar'. 
Estava a ouvir ópera, enquanto lia. Não resisti à tentação de ser redundante. Volto, portanto, a publicar o video em causa neste meu recanto (Solos sem Ensaio). 
A boa música é sempre confortante para o espírito. Mesmo para os frequentadores do Café Iruna, em Pamplona, que foram surpreendidos com uma excelente, alegre e entusiasmante interpretação de ópera. 
A gravação foi feita no Dia Europeu da Ópera em 2010. O tempo corre como a água imparável dos rios, mas ver e ouvir este vídeo é desfrutar dos prazeres deliciosos da boa música:





terça-feira, 29 de novembro de 2016

O ex-banqueiro Domingues e o editorial do ‘Público’

O editorial do 'Público'

O desempenho deplorável dos bancos foi e é, a nível internacional e nacional, a causa principal da crise a que o mundo está submetido; também, por falta de regulamentação e de acção dos governos dos principais países ocidentais – Lehman Brothers, Goldman Sachs, Lloyd’s Bank de Osório e o secretíssimo Deutsche Bank são, apenas, escassos exemplos de autores dessa crise e do empobrecimento de milhões de seres humanos, assim como da obscena desigualdade a que a larga maioria da população mundial está condenada.
Portugal não se furtou ao terrível fenómeno, não deixando, por isso, de ser atitude insolente e reprovável publicar um ‘editorial’ que, no fundo, constitui uma desajeitada tentativa de branquear o comportamento de um tal Domingues, que se demitiu da presidência da CGD, transferindo, no respeito pela versão da oposição e seus acólitos, as responsabilidades para o primeiro-Ministro António Costa e sua equipa das Finanças Públicas.
Vamos lá colocar os responsáveis e suas acções no lugar devido. Primeiro, e afirmo-o com convicção, António Costa jamais deveria ter cedido às exigências dessa figura estranha chamada Domingues que, no andar, nos gestos e nas parcas palavras, me faz lembrar – nem eu sei por que razão – o Eusebiozinho, doentio, manhoso, indolente e neste caso enigmático, dados os traços semelhantes à conhecida personagem dos ‘Maias’.
Domingues, como Jardim Gonçalves, Teixeira Pinto, João Rendeiro, Ricardo Salgado, Oliveira e Costa, parte menor de uma longa lista de outros, são responsáveis por causar um custo estimado em 20 mil milhões de euros aos contribuintes do País, em actos que a Justiça Portuguesa tarda em julgar. Têm sido poupados a críticas da imprensa portuguesa, maioritariamente de direita.
Toda essa gente tem beneficiado de um breve tempo de expiação. Durante uma sesta, evaporam os seus ‘problemas de consciência’, se é que alguma vez os sentiram. Todos se julgam inocentes. Hipocritamente.
Haveria provas inequívocas de politização, anos a fio, da CGD negociadas e accionadas pelo ‘centrão’ (Rui Vilar, João Salgueiro, António de Sousa, Oliveira Pinto, Vítor Martins, Faria de Oliveira, Carlos Santos Ferreira…) Por que motivo estes gestores, politicamente comprometidos, não são citados no editorial como responsáveis pela situação de descapitalização do citado banco público? O ‘editorialista’ lá saberá do interesse e dos motivos para a omissão.
Todavia, para terminar ainda de forma mais grotesca e lesiva do interesse nacional, o ex-fundador do ‘Observador’ e assessor de Durão Barroso escreve:

"O resto do plano de recapitalização é que terá que esperar pela próxima administração. Desde logo a emissão obrigacionista de mil milhões de euros (para privados), condição imposta por Bruxelas para que a operação não seja classificada como um auxílio público. A operação é sensível,porque para que os investidores respondam positivamente, terão deacreditar na estratégia de capitalização e ter a certeza que a Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia, a DGCom, a aceita. Só depois disso poderá vir o restante montante, via Estado português."

Tudo isto consubstancia um desejo e um desprezo sinistros em relação aos interesses do País - querem a CGD privatizada. A agência de ‘rating’ DBRS considerou esta tarde que, devido aos problemas de atraso na recapitalização da CGD, poderá classificar esta como ‘lixo’, o que poderá ser mais um motivo do nefasto contentamento do editorialista.
Que tipo de escribas são estes? Sei a resposta, mas por decoro, fico-me por lhes chamar  ‘porcos neoliberais’. Antipatrioticamente, lutam desesperadamente por ver o País regressar às insolvências, desemprego e deterioração dos bancos da responsabilidade e herdada de Passos Coelho e da amanuense Maria Luís de Albuquerque? Tristes trastes!

sábado, 26 de novembro de 2016

Freddie Mercury , uma homenagem atrasada

Há dois, 24 de Novembro, completaram-se 25 anos da morte de Freddie Mercury. Pianista, compositor e cantor, Freddie foi a alma dos 'Queen'. Uma voz poderosa e arrebatadora, com um tipo de registo invulgar e emocionante. Morreu a 24 de Novembro de 1991. Precocemente, aos 45 anos de idade. No auge da brilhante carreira. 
Devo-lhe esta homenagem singela em sua memória, sem deixar de recordar, emocionado, a obra que nos legou e que é de todos os tempos.
Comemoro o seu inegável talento, através de um 'vídeo' com outra grande senhora da música, a soprano Montserrat Cabellé, nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1988. A melodia intitulava-se justamente 'Barcelona':



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Execução orçamental de Outubro de 2016? Então vamos a contas!

Uma primeira e habitual advertência: os números da execução orçamental são calculados segundo os critérios da ‘Contabilidade Pública’, i.e., na base dos fluxos de caixa (ingressos e saídas de dinheiro da Administração Central e da Segurança Social.)
O SEC (Sistema Europeu de Contas de 2010) estabelece que o registo das operações se deve efectuar de acordo com o princípio da especialização económica, ou seja, no momento em que o valor económico, os direitos ou as obrigações são criados, transformados ou extintos e não no momento em que os fluxos financeiros ocorrem, como sucede com um registo em contabilidade de base caixa. Este é o critério de base, ‘Contabilidade Nacional’, aplicado pelo Tratado de Maastricht.
Sucede normalmente que os resultados de um outro sistema de Contabilidade, Pública ou Nacional, são divergentes em termos de défice ou superavit (excedente) das Contas Públicas.
No fundo, é esta trama árdua de relatar conceitos e regras, impostas pelo Tratado Orçamental, em que Portugal e os países da Zona Euro estão envolvidos – e já nem foco o ‘défice estrutural’, esse aberrante instrumento utilizado para justificar regimes de austeridade impostos à economia.
Conquanto os dados da execução orçamental, ontem divulgados pelo Governo, comportem um défice de – 4.430 milhões de euros em ‘Contabilidade Pública’, é de prever que o País venha a cumprir, em ‘Contabilidade Nacional’, um défice até 2,5%, exigido de forma despótica por Bruxelas – lembre-se que o limite do défice do PEC (Pacto de Estabilidade e Crescimento) é de 3%, segundo normas da Zona Euro.
Ponderados todos estes caminhos turvos das ‘contas públicas’, o facto é que, em Outubro de 2016, Portugal melhorou o défice em ‘Contabilidade Pública’ no valor de 356,9 milhões de euros, comparativamente ao período homólogo de 2015. Prevê-se como natural que venha a cumprir a meta dos 2,5%, ou menos um pouco, alcançando, destarte, o mérito da saída das ‘regras de procedimento por défices excessivos’.
Os cépticos da solução da ‘geringonça’ estão decepcionados com o desempenho das ‘contas públicas’. A política de reversões e de redução drástica da austeridade deixou-os imobilizados ou, em alternativa, a enredar-se numa sucessão de dislates.
Todavia, não é apenas a oposição da PSD e do CDS que terão de renunciar à maldição desejada. Uma breve leitura pelo ‘site’ de Economia e demais informação publicada levam-nos à conclusão de que os incrédulos, não há muito tempo, eram também implacáveis com o País, apesar de se terem na conta de instituições respeitadas (?)

  1. O FMI tem dúvidas que o défice português em 2016 e 2017 fique abaixo dos 3%. (Set-2016).
  1. A agência de ‘rating’ Fitch prevê que no final de 2016, o défice português vai atingir 3,4% do PIB nacional. (Agosto-2016)
  1. O Barclays aponta para um crescimento do PIB nacional inferior a um por cento este ano e um défice que será superior a 4% do produto.
  1. CFP, Dra. Teodora, melhorou a previsão para um défice de 2,6% em 2016 (Agosto-2016)
  1. A OCDE piora previsão do défice português para 2,9% em 2016 e admite mais medidas (Junho-2016)
  1. UCP/NECEP: não há informação pública suficiente para estimar se o défice público ficará abaixo de 3% em 2016

Como é óbvio, temos à disposição, para a mesma variável (défice), processos de adivinhação diversos e muito distintos. Chamar a isto jornalismo ou trabalho institucional e académico sério é uma indesculpável afronta. Que credibilidade merece este conjunto de cientistas de almanaque? Nenhuma. A ‘Fitch’, FMI, OCDE e Barclays jamais recuperarão a confiabilidade para comentar e criticar a economia portuguesa, sem que demonstrem preocupações de rigor.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Pedro Passos Coelho em desespero

A Dr.ª Teodora calou-se. A UTAO emudeceu. Estes silêncios são desesperantes para Pedro Passos Coelho. São coisas do Diabo!
Para suprir essas falhas de comunicação, Pedro Passos Coelho (PPC) realizou uma reunião de 40 minutos com os deputados do PSD. 
As declarações de PPC são exaustivamente descritas pelo ‘Observador’, uma espécie de ‘Bandarra’ da direita neoliberal portuguesa, em ‘site’ electrónico.
Coelho fixou exasperado porque o IGCP, dirigido por Cristina Casalinho por si nomeada, antecipou um pagamento ao FMI de dois mil milhões de euros, poupando 41 milhões de juros. 
O frustrado Coelho entende que diminuir dívida externa, paga a 4,5% ao FMI, é uma medida lesiva do interesse nacional. É mesmo a total exasperação do homenzinho que, a cada minuto, hora e semana, se apercebe que, mais cedo do que tarde, vai ser afastado da liderança do PSD.
Com a alegoria a foguetes intempestivos, mais a mais em época do ano em que a diversão da romaria cede o lugar à comodidade do lar, o mesmo homenzinho, por enquanto líder do PSD, considera que o executivo de António Costa (AC) fez esse pagamento, porque atrasou a recapitalização da CGD para 2017.
O que também o deixou embravecido foi o facto do presidente Marcelo Rebelo de Sousa ter expressado com clareza que estamos a viver um período de estabilidade. – Estabilidade não é confiança! – sentenciou Coelho no tom de idiota arrogante, de quem está convencido de que haverá uma maioria de portugueses que acreditam no que vai comunicando.
Com a ameaça de afastamento do PSD, acicatada pela popularidade e resultados de sondagens favoráveis ao governo de AC, acrescentou mais um disparate ao discurso: - É um governo que não merece governar 4 anos. –
Sabe-se que o grotesco epíteto da ‘geringonça’, da autoria de duas figuras asquerosas da política portuguesa (Pulido Valente, falso nome de Correia Guedes, e Paulo Portas); esse epíteto, dizia, criou em PPC a expectativa de que o executivo actual tinha vida curta. Mas, como é limitado de inteligência e está viciado na cultura de ditos e mexericos, talvez o PSD, não ele que está de partida, tenha de esperar 4 anos de mandato de AC, a fim de chegar ao paraíso do ‘radicalismo do amor’, ideia apaixonada da ex-companheira de governo Cristas, uma romântica indisfarçada.
A terminar: Passos Coelho nunca explicou como reduziria o financiamento de 600 milhões de euros à Segurança Social, tornando-se, portanto, mais absurdo vir criticar os 430 milhões de “cativações permanentes”, segundo palavras suas. Contradicções e mentiras, é sabido, são a sua especialidade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A Coimbra Editora moribunda?

A pergunta é uma inquietação. Natural, julgo eu, para quem vive e se regozija com as características históricas dos ícones urbanos das cidades portuguesas.
Direito jamais foi o meu curso. Sou economista, licenciado (ISCTE) e mestrado (UCP). Nos cursos frequentados, era, porém, exigida formação em certas áreas jurídicas. Eu, e todos os meus camaradas de estudo, tivemos de começar pela ‘Introdução ao Estudo do Direito’, do Professor Castro Mendes (FDL) e prosseguir com ‘Direito Económico’, ‘Direito Fiscal’ e ‘Direito do Trabalho’; este o mais desprezado por perversos professores da direita.
Por força da via profissional, senti-me obrigado a abordar outros ramos de direito. A livraria da Coimbra Editora, na Rua Nova do Almada, foi sempre o meu local regular de visita de leitor compulsivo, por culpa própria ou exigência de saberes que as empresas onde trabalhei me impunham.
È bastante consternado que hoje, dia 21 Novembro de 2016, soube da incompreensível falta de decisão sobre o 2.º PER (Processo Especial de Revitalização) a que a Coimbra Editora recorreu. O caso torna-se ainda mais inconcebível, uma vez que, a 22 de Janeiro de 2016, o ‘Jornal de Negócios’ anunciava o seguinte:


Os 60 dias já lá vão e há muito. A maldita ‘suspense’ permanece.
Em 1920, se lá chegar, a Coimbra Editora comemorará 100 anos de existência. Será, de facto, frustrante vir a saber-se que, afinal, a produtora de vasta obra jurídica está moribunda e não escapará à falência. 
Coimbra e Lisboa, e outras cidades por onde ainda circulam os restos de obras de direito de grande qualidade, se a desgraça se confirmar, ficam despojadas de um centro de difusão de cultura jurídica de enorme valia – sem ponta de comunhão ideológica, cito apenas os 5 volumes de Pires de Lima e Antunes Varela (Código Civil Anotado) que, no conjunto, são impossíveis de adquirir no todo. É uma obra ímpar e está esgotada, a não ser que aqui  e acolá nos contentemos com um volume solto e meio-perdido.
O ‘Chiado’, com a 'Bertrand' como segunda livraria mais antiga do Mundo (a primeira é em Tóquio) e com a recuperada ‘Livraria Sá da Costa’ fica mais pobre se a Coimbra, à semelhança da Livraria Portugal, desaparecer.
Todavia, é preciso dizê-lo: o ‘Chiado’ naturalmente não se queixa. Quem fica triste são aqueles que adorariam ver prolongado no tempo lojas tipicamente nacionais, que vão dando origem à Zara, à Benetton, à Massimo Dutti, à Bershka e a outras que vão transformando a parte nobre da nossa cidade em espaço de ‘Feira da Ladra’ da era pós-moderna. Estabelecimentos de trapos e trapinhos.
Apenas para terminar, e com a devida relatividade, o encerramento da Coimbra causaria igual desgosto ao que senti quando me apercebi da transformação da ‘Colombo’ e do ‘Café Roma’ em restaurantes McDonald’s – fenómenos da gentrificação equivalentes aos que transformam águas-furtadas de Alfama em mansardas de aluguer temporário, para turistas que desvirtuam e perturbam a vida bairrista.
É o negócio.


domingo, 20 de novembro de 2016

E.U.A., o país desconcertante de Yves Moor e Donald Trump

Pátria do marketing, os E.U.A. registam um período histórico não longínquo, mas recheado de eventos, contradições, especulações e de um tecido humano desde sempre complexo.
A despeito do fim da escravatura, da hipocritamente negada arrogância dos sulistas, da falsidade de progressos sociais, a coesão económica e social do País é um mito. A eleição do fascista Trump – atente-se ao tipo de equipa política que está a constituir – foi um fenómeno aberrante e de difícil compreensão, sobretudo nos círculos culturais mais avançados do mundo. De facto, é inevitável ficar estupefacto quem vê eleger Trump, passados quatro anos de ter renovado o mandato do primeiro presidente negro dos E.U.A., Barack Obama.
Sociólogos, analistas políticos e comentadores, alguns tidos como sábios, têm-se desdobrado em análises e justificações herméticas e até ininteligíveis. Com o desempenho e o tempo, vamos, espero, poder ler e sentir a realidade da presidência de Trump para os E.U.A. e para o mundo.
Felizmente, e agora é mais um episódio da História, um povo e um País, grande ou pequeno, não pode ser avaliado histórica e politicamente pelo mandato de um líder político. Trump, como Salazar em Portugal, terá o seu tempo e inevitavelmente um legado a julgar. Aí sim, é possível realizar o balanço do desempenho político do bilionário mediático, xenófobo, misógino e racista.
Todavia, sublinho, felizmente os E.U.A. não se reduzem a Trump. Outras figuras dignificaram a história e a cultura do País. Pena é que, fruto do vício do marketing, incrustado na sociedade com capital em Washington, haja gente de muito valor que o grande público, e mesmo os pseudointelectuais dos ‘media’,  ignorem.
Tudo isto vem a propósito do livro “Os Herdeiros do Vento – Antologia Apócrifa” de Joaquim Pessoa, que vou lendo.
Na página 141, entre o mais, Joaquim Pessoa escreve:

“… Por isso, o estranhíssimo caso de Yves Moor é deveras espantoso, e ainda hoje constitui motivo de assombro para obstetras, psicólogos, críticos literários.
Nascido em Amedford, Oregon, E.U.A., em 1922, morreu prematuramente com dez anos de idade. …”
Precoce na inteligência, Moor deixou-nos o seguinte poema:

“Não tenho nada
nada a não ser a erva húmida sob os meus pés descalços
nada a não ser o fresco alento da noite sobre os meus ombros
nada a não ser este fogo
onde aqueço as minhas mãos
nada a não ser o canto das cigarras
nada a não o crepitar dos ramos na fogueira
nada a não ser o brilho cúmplice e distante
daquela estrela
talvez já apagada
cujo raio viajou milhões de anos
para chegar esta noite
até mim.”
Quem assim confessa a pouquidade, aos dez anos de vida, jamais será derrotado pelo dinheiro do bilionário beleguim que sempre se prostituiu em faustosa e abjecta vida. Maior riqueza do que a sensibilidade e sabedoria é, neste caso, uma enorme penúria.

Nos E.U.A. há Trump e houve Moor. Ou o mau e o bom, segundo a nossa tradição judaico-cristã. Ou ainda o reles ignorante e mau e o génio precoce e sábio que partiu prematuramente, mas ficou para sempre no espaço mais sublime da vida humana. 

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O PIB do 3.ºT de 2016, a realidade e as previsões da Universidade Católica

Foi o Diabo! A direita hoje levou um murro no estômago. No ‘site’ do INE, pode ler-se:
O Passos ficou endiabrado de desespero. Mas sorumbático. O Montenegro caiu nas trevas, do cume ao sopé. O Marco António lamentou para a Cleópatra, Maria Luís. Esta argumentou que o INE errou.
É esta a gente de direita que temos, com quem a Universidade Católica, de ‘Opus Dei’ e Jesuítas, alinha na trampolinice, comportamento que acasala no som com Trump, o herói do populismo, da xenofobia e do racismo. 
É bom que se lembre que, ainda ontem, na imprensa, Jornal de Negócios salvo erro, se referia o prognóstico desse antro de abjectos estudiosos da UCP/NECEP. Lembro a previsão:
Frequentei a UCP durante três anos. Sei do que falo e de quem falo. O rigor exigível a um académico é distorcido continua e propositadamente por um corpo docente na maioria fanático e de direita. Sem respeito pela exactidão científica.
A superioridade do saber e do ensinar é, em muitos dos professores, uma falsidade. Disfarçada, em muitas disciplinas, por propaganda política e falta de imparcialidade. Não me surpreende que as previsões da UCP/NECEP, na véspera, tenham sido anunciadas nos jornais com 0,2% do acréscimo em cadeia e 1,0% para o período homólogo – os valores reais foram bastante acima: 0,8% e 1,6%, respectivamente. No período homólogo, i.e., relativamente ao 3.º T de 2015, a UCP, através do NECEP, previu apenas 60% do resultado efectivo.
Creio que estes factos e mentiras, como muitos outros fenómenos e comportamentos no seio da Universidade Católica, deveriam envergonhar a equipa incompetente de professores e eventuais assistentes, tão arrogantes no trato que ousam ser gente desonesta, insensata e dotada de enorme imbecilidade.
Como augura o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, oxalá a economia caminhe neste trilho de sucesso até ao final do ano. Para bem do País.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A jornada de auto-flagelação dos taxistas

Infelizmente, parte considerável dos taxistas, no dia-a-dia, já criam muitos anticorpos a passageiros. Os líderes associativos, da Antral e da Federação de Táxis, demonstraram nas intervenções de ontem estarem mais sintonizados com a citada parte podre, não revelando estofo e capacidade de argumentação para defesa sólida das causas motivadoras da manifestação de ontem.
O tom e a forma dos protestos, bloqueio de acessos ao Aeroporto de Lisboa, actos de destruição de carro da Uber, insultos e agressividade constituíram atitudes de auto-flagelação. Uns e outros, taxistas de mau porte e dirigentes incapazes, acabaram naturalmente por desperdiçar a oportunidade de colher apoios e compreensão da opinião pública. De facto, foi uma jornada de auto-flagelação.
Uns tantos temas, caso tivessem sido objecto de sólida argumentação pelos representantes dos taxistas, evidenciariam a existência de razões que lhes assistem.
Por exemplo, o secretário de Estado, J. Mendes, a certa altura comparou a concorrência entre a Uber e Cabify, por um lado, e os táxis, por outro, sustentando que era do mesmo género daquela entre cabeleireiros e pastelarias (programa ‘Pós e contras’ da RTP1). Este raciocínio absurdo não foi desmontado. Todas as pastelarias estão no mercado a competir segundo as mesmas leis de licenciamento e funcionamento, coisa que não sucede entre as plataformas e os táxis – as plataformas, diga-se, ainda nem sequer actuam ao abrigo de qualquer lei.
A facilitação do trabalho precário por parte dos operadores das plataformas face à legislação laboral vigente no sector dos táxis é outra desigualdade intolerável, com a agravante do governo declarar, através do PM e ministros, o propósito de combate ao trabalho precário.
As ligações da Uber ao maldito Goldman Sachs são reais (ver aqui). É do conhecimento geral que tal império financeiro não é propriamente um modelo de instituição idónea. Nada foi dito.
A parte de 25% cobrados pela Uber aos operadores é demasiado elevada e, naturalmente, será mais uma parte do rendimento nacional transferido para o estrangeiro.
O conceituado ‘The New Yorker’, embora sob a vertente da concorrência entre uma nova plataforma Juno e a Uber em New York, trata o caso de forma exaustiva e do extenso artigo traduzimos o seguinte trecho:
“[…] Os condutores souberam que a comissão de Juno era de dez por cento, "garantido para nossos primeiros vinte e quatro meses." (Uber normalmente cobra vinte e cinco por cento ou mais.) Em um a slide, intitulado "Exemplo de percurso", um gráfico de barras mostrou uma comparação entre um condutor da Uber e outro da Juno num percurso de trinta dólares: o condutor da Uber, após a comissão e os impostos e taxas, manteria $19,11, enquanto o motorista Juno receberia $23,61. "Para literalmente a mesma quantidade de trabalho, levas para casa quatro dólares mais." Smith disse e acrescentou: "E isto para um serviço. Pense em dez anos, mais de vinte anos."
Certamente, um dia, a Juno virá para a Europa e, aí sim, Uber e Cabify terão concorrência de peso. Se parte dos industriais de táxi tiverem uma visão estratégica e conseguirem descaracterizar e renovar as frotas, assim como seleccionar motoristas de elevado perfil, talvez possam tirar partido do ingresso da Juno no mercado português.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Hillary Clinton venceu claramente Donald Trump

Hillary Clinton e Donald Trump (Washington Post)
Assisti na SIC-N ao debate de Hillary Clinton e Donald Trump. Hillary ganhou claramente. Chegou a ser demolidora na argumentação contra o candidato republicano, o populista Trump. O homem perdeu a serenidade, em vários momentos. Saiu penalizado quando a adversária trouxe para a discussão os incumprimentos de Trump como contribuinte (dívidas ao fisco) e empresário (dívidas a fornecedores), as injúrias às mulheres denunciadas através desta frase:
“Este é um homem que chamou porcas, patetas e cadelas às mulheres, que disse que a gravidez era um incómodo para os empregadores”.
No que se refere à comunidade afro-americana, e depois de Trump ter sido repetitivo na crítica ao nível de criminalidade de membros dessa comunidade em Chicago, Hillary lembrou-o de que Donald Trump, nas suas empresas, se havia recusado a empregar negros, uma atitude claramente racista.
Todavia, a declaração impactante da noite de Hillary foi a seguinte:
“Penso que Donald critica-me justamente por me ter preparado para este debate. E sim, fi-lo. E sabe o que eu mais preparei? Preparei-me para ser Presidente e esta é outra questão.”
No final, a CNN promoveu e divulgou várias sondagens. Os resultados são todos favoráveis à candidata democrata por confortável margem, conclusão que, de resto, é idêntica às opiniões publicadas na imprensa norte-americana, desde o “Washington Post” ao “New York Times”.
O decurso e desfecho do debate, de certa, forma desmontam as previsões à priori do comentador Nuno Rogeiro. Este previa um confronto equilibrado e até com uma eventual vantagem de Trump, porque, alegava, era um homem agressivo e até detentor de formação académica superior (Universidade de Wharton), perante quem a oponente, Hillary, iria encontrar dificuldades, visto que o estilo desta era demasiado discursivo e pouco incisivo. Errou, como é habitual nos comentadores políticos que proliferam nos nossos canais televisivos. Não resistem à tentação de ser tendenciosos. Uma estupidez habitual, porque imaginam que as audiências das TV’s são totalmente compostas por gente estúpida, sem capacidade crítica.
Agora, no rescaldo do debate, é possível prever que Hillary ganhará as eleições presidenciais? Não, há ainda muito caminho a percorrer e sobretudo porque estamos a falar dos E.U.A.. Tudo é possível na pátria do marketing. Ou tudo é imprevisível a esta distância da data eleitoral. Não sendo absurdo que os norte-americanos, depois de terem escolhido pela primeira vez um presidente afro, democrata, venham a eleger um racista louro e conservador.
O eleitorado norte-americano pode vir a revelar-se, maioritariamente, apreciador dos “sound bytes” do populista Trump, em prejuízo das ideias e comunicações estruturadas de Hillary Clinton. Se assim não fosse, Trump nunca chegaria tão longe no seio do seu próprio partido.

Aguardemos. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A desconstrução do triângulo Saraiva, Gradiva e Coelho

Há dias publiquei um ‘post’ a respeito do livro dos mexericos de José António Saraiva, da editora Gradiva e do, então anunciado, apresentador do livro Pedro Passos Coelho.
O citado ‘post’, em dias, ficou prejudicado. Desactualizou-se. Passos Coelho, depois da assumida estupidez de apresentar um livro que não lera, teve uma mágica intermitência dessa estupidez, convencendo o Arquitecto Saraiva, especializado em interiores de privacidade, a desobriga-lo da cerimónia, marcada para o ‘El Corte Inglés’ que, entretanto, já se desvinculou de abrigar o sórdido acto.
Sem um vértice e um dos lados, Coelho, o triângulo desfez-se. Restam dois segmentos de recta, de uma geometria mórbida: a Gradiva e Saraiva.
A editora, que até desfrutava de algum prestígio pelas publicações que acolhia, terá de viver com esta mácula, até que outros livros respeitadores dos cânones da literatura séria a demovam com o tempo.
Quanto a Saraiva, presumo não haver terapias que o livrem do absurdo comportamento mental. Na revista ‘Sábado’ li uma entrevista sua, de causar vómitos. O Arquitecto-jornalista faz afirmações que me causaram perplexidade e me levaram à conclusão, fácil, de que o homem está louco. Afirmou, por exemplo: “Este livro vai ser um clássico de literatura política”. Como quem diz: “Juntar-se-á à biografia de Churchill, aos livros André Malraux, George Orwell ou do ainda vivo e jovem Fareed Zakaria e a muitos mais actores ou estudiosos da actividade política que ficarão indelevelmente associados à História da Humanidade.
O mais ridículo dos objectivos de Saraiva é a declaração de que tem pretensões ao Nobel da Literatura. Nem consigo classificar esta anormalidade.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Saraiva devassa, Gradiva edita e Coelho guincha

Próximo dia 26 de Setembro. Não sei, nem me interessa saber a que horas. Os media, penso, comparecerão em peso. Tudo o que seja escândalo, sexo, vidas de políticos, eventos de múltiplos mortos e desgraças é matéria-prima que impulsiona a venda de papel e capta audiências para TV’s. 
Mas o que verdadeiramente me interessa é imaginar o ‘El Corte Inglés’ repleto. Estará presente toda a corte da curiosidade depravada e patológica. Parece que estou a vê-los. A elas e eles. 
Na primeira fila, bem cedo, sentar-se-ão a D. Guilhermina e Milinha, sua neta. A senhora ficou viúva há anos do Sr. Pepe, abastado negociante de vinhos com adegas no Gradil, lá para os lados de Mafra. No bairro onde vivia, um homem de má-língua, reformado, alcunhou a D. Guilhermina de ‘Condessa de Gouvarinho’. O epíteto, dizia, devia-se a um romance clandestino que a senhora mantinha com o dono de uma pastelaria das proximidades.
A plateia, pressuponho, será composta por gente de várias idades, sugadora da devassa da vida alheia, característica da obra literária José António Saraiva; obra, acentue-se, promiscua e abjecta de que Passos Coelho será apresentador. O obscuro político utilizará, como é habitual, o discurso impreparado, recheado de frases próprias de quem ignora a moral, a ética e até básicas regras de sintaxe.
Custa aceitar esta cerimónia em que Coelho exaltará um livro de mexericos, uma verdadeira mixórdia de descrição de vidas alheias, baseada, segundo o autor, em conversas privadas. Tudo isto sem que haja o escrutínio e o direito ao contraditório, por morte de alguns que, consequentemente, estão silenciados para eternidade. E, mesmo sem formação em direito – sou economista – duvido que Saraiva e Gradiva não estejam a infringir a Lei do Código Penal, Art.º 192.º - Devassa da vida privada.
Sinto ainda mais a existência do considerável número de doentios curiosos por livros reles e ofensivos, gente inculta e incapaz de ler obras de Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, Patrícia Reis, João Tordo, Valter Hugo Mãe e outros que, menos ou mais jovens, começaram a percorrer o complexo caminho da literatura de qualidade, sem se centrarem no aberrante sensacionalismo e no lucro a qualquer custo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O jornalismo tacanho de Carvalho e a análise sábia de Stiglitz

Manuel Carvalho publicou no ‘Público’ o artigo ‘Maldita rentrée’.  O texto caminha por jargões e comentários, cheios de epítetos habituais em baixa política, visando sobretudo António Costa. Fala do Prof. Marcelo e também refere Passos Coelho, ao considera-lo um falhado no resultado final das políticas neoliberais adoptadas, não poupando, é óbvio, nas críticas a Catarina Martins e Jerónimo de Sousa.
Por outro lado, Carvalho refere superficialmente a Europa e o euro, mas enreda-se na problemática do défice, sem que, do ponto de vista das doutrinas e políticas económico-financeiras, saia qualquer análise, ideia ou proposta de solução.
O artigo é, de facto, pobre, subjectivo e impulsionado pelo notório propósito de hostilizar o governo de António Costa, terminando nos seguintes termos:
E o PS tinha prometido um “virar de página” alicerçado na confiança, no investimento e no futuro. Bastou uma semana para nos recordarmos de que tudo isso é cada vez mais uma miragem. Maldita rentrée. »
A este jornalismo tacanho, da crítica pela crítica, oco de conceitos e repleto de adjectivação burlesca, oponho a sábia análise de Joseph Stiglitz, publicada no ‘Expresso’ do último Sábado, pelo Nobel de Economia, ex-assessor económico de Clinton e ex-vice-presente do Banco Mundial.
O artigo do prestigiado professor da Universidade de Columbia começa com o seguinte ‘lead’:
“A culpa é mais do euro do que das políticas e estruturas dos países e estruturas dos países. A zona euro impôs o tipo de rigidez do padrão-ouro.” [Observação minha: o padrão-ouro significou a adopção de um regime cambial fixo por parte de praticamente todas as grandes potências económicas, do século XIX até 1914).
Em função da extensão do artigo de Joseph Stiglitz, vou procurar sintetizar as suas conclusões no sentido de uma solução para a zona euro:
“O euro só poderá funcionar se forem alteradas as regras e as instituições da zona euro. Isto obrigará a sete alterações:
  • abandonar os critérios de convergência que obrigam a que os défices sejam inferiores a 3% do PIB;
  • substituir a austeridade por uma estratégia de crescimento, suportada por um fundo solidário para a estabilização;
  • desmantelar um sistema propenso a crises, onde os países têm de contrair empréstimos numa moeda que não é controlada por eles, e passarem a depender de Eurobonds ou de um mecanismo similar;
  • repartir melhor as responsabilidades durante o ajuste, com os países que apresentem superávites a comprometerem-se a aumentar salários os gastos fiscais [orçamentais, em meu entender]…;
  • alterar o mandato do BCE que se centra apenas na inflação, ao contrário da Reserva Federal dos EUA, que considera também o desemprego, o crescimento e a estabilidade;
  • estabelecer um seguro comum de depósitos, o que evitaria que o dinheiro fugisse de países com fracos desempenhos…;
  • e encorajar, em vez de proibir, políticas industriais concebidas para garantir que os retardatários da zona euro possam alcançar os seus líderes.
E Stiglitz remata com uma conclusão interessante. Diz o professor que, de um ponto de vista económico, estas mudanças são pouco importantes; mas à liderança actual da zona euro pode faltar vontade política para implementá-las.
Tudo o que transcrevi e o restante do artigo extenso do Nobel norte-americano devora e reduz a banalidades próprias de conversa desconexa de café o escrito por Manuel Carvalho.